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A gôndola do talento

Sua empresa ainda contrata como se escolhesse. Mas ela está sendo escolhida.

O poder mudou de lado no mercado de trabalho — e a maioria ainda não percebeu.

Por Thiago Sibuya··7 min de leitura

Em resumo: contratar ficou mais difícil, mas a explicação usual — falta de gente qualificada — está errada. O que mudou não foi a quantidade de profissionais disponíveis: foi de que lado está o poder na negociação. O mercado de trabalho está repetindo uma inversão que a indústria de bens de consumo já viveu, e perdeu.

O precedente: quando a indústria perdeu a gôndola

Nos anos 1970, a indústria mandava. Um fabricante de bens de consumo definia preço, condição e prazo, e o varejo aceitava — porque precisava do produto mais do que o produto precisava daquela loja.

Isso virou. Com a consolidação das redes de supermercado, o varejo ganhou escala e passou a decidir o que entra na gôndola. Em 1985, o Walmart obrigou todos os fornecedores a adotar o código de barras. Parece detalhe logístico; foi transferência de poder. A partir dali, quem sabia o que o consumidor comprava, quando e a que preço era o varejo — não mais a indústria. Em 1987 nasce a aliança P&G–Walmart, e com ela a lógica que o mercado passaria a chamar de trade marketing: uma área inteira criada porque a indústria não podia mais impor, precisava negociar acesso.

Depois o poder se moveu de novo, do varejo para o consumidor — que passou a comparar, avaliar publicamente e escolher com informação que antes não tinha. Antes, a indústria ditava os hábitos de consumo da população. Hoje, são os hábitos de consumo da população que ditam o comportamento da indústria.

Duas viradas, um mesmo mecanismo: o poder migra para quem controla o acesso, e em seguida para quem controla a informação.

É esse mecanismo que está operando agora no mercado de trabalho. Chamo isso de a gôndola do talento — a mesma inversão de poderes, num outro tabuleiro. E, como no varejo, quem está perdendo é o último a perceber.

Três tempos

Primeiro tempo: a casa formava

Décadas atrás, não se exigia qualificação extrema para entrar. Contratava-se quem se podia confiar — e todo o resto a casa construía. As pessoas se desenvolviam dentro da própria organização, em ritmo analógico, e não era exótico que alguém entrasse como motoboy e chegasse à gerência, à diretoria, à presidência.

Não existiam tantas cadeiras desenhadas esperando para ser preenchidas: as cadeiras se formavam com o desenvolvimento das pessoas. A empresa não procurava o profissional pronto de que precisava — ela transformava os dispostos.

Segundo tempo: o excedente

As estruturas corporativas cresceram em volume e adotaram departamentalização e setorização. A especialização passou a ser antecipada e desvinculada do empírico — bagagem adquirida academicamente, conhecimento formal sem a profundidade que só a prática constrói.

Passou-se a avaliar disposição, atitude e potencial, somados a uma técnica ainda rasa. Contratava-se o que a pessoa podia vir a ser — e a casa ainda moldava depois da entrada.

Como o diploma bastava, a régua ficou baixa. E o número de profissionais capazes cresceu mais rápido que o de posições, pelo aumento do acesso, do interesse e do próprio número de instituições de ensino superior e de capacitação técnica.

Cada vaga passou a acumular dezenas de candidatos tecnicamente aptos — e esse excedente deu à empresa um poder que ela usou: enxugar salário, alongar processo, inflar escopo de atividades, ditar condição. Quem contratava escolhia. Quem era contratado agradecia.

Foi aqui que se formaram os hábitos que o mercado ainda pratica: o processo que não dá retorno, a proposta abaixo do valor, a exigência de dez requisitos para uma função que precisa de três.

Terceiro tempo: a régua

É o tempo em que estamos. Ele não veio do volume nem da departamentalização — esses já existiam. Veio da altura da régua.

Exige-se agora robustez técnica real dentro de um recorte estreito e análise comportamental profunda: competência de relação, encaixe cultural, leitura de ambiente. Não mais o potencial, mas o encaixe comprovado. Não o que a pessoa pode vir a ser — o que ela já é.

Hoje não se busca um gestor de logística com pós-graduação. Busca-se um gestor de logística com case de implantação de WMS e familiarizado com a dinâmica de marketplaces, e que caiba na cultura da casa.

Repare no movimento dos três tempos. Cada um acrescentou um critério, e nenhum retirou os anteriores. Confiança, potencial, técnica, encaixe cultural — a lista só cresce. E o conjunto de pessoas que atende a lista inteira encolhe a cada rodada.

A troca que ninguém contabilizou

Por que a empresa parou de formar?

Não foi descuido. Comprar pronto dá velocidade — e velocidade virou requisito no mundo digitalizado. O mundo analógico permitia formar alguém ao longo de anos porque o mercado mudava no ritmo em que a pessoa amadurecia. O mundo digital não dá esse prazo. Quando a competência leva três anos para ser construída internamente e o mercado se reconfigura em doze meses, formar deixa de ser investimento e passa a ser atraso.

A decisão foi racional. Só que teve preço, e o preço só apareceu depois: quando todo mundo passou a comprar pronto, ninguém mais está produzindo. O estoque de gente pronta é finito, não se repõe sozinho, e o mercado inteiro disputa o mesmo estoque.

A empresa transferiu ao mercado uma responsabilidade que já foi dela. Ganhou a velocidade que queria — e criou, junto, a escassez de que hoje reclama.

Onde o poder vira de lado

E aqui está a inversão: antes, a empresa definia o perfil e o mercado se ajustava a ele. Hoje, é o mercado que define o perfil possível — e a empresa se ajusta a ele.

Quanto mais alta a régua, menor o conjunto de quem a atravessa. E quando esse conjunto fica pequeno o bastante, quem está dentro dele deixa de ser candidato e passa a ser disputado. Não é generosidade do mercado nem espírito de uma geração: é o que acontece com qualquer bem quando a demanda cresce e a oferta não acompanha.

Escassez de talento não é o mesmo que escassez de gente. As duas convivem — são a mesma coisa vista de lados opostos.

Num projeto de busca executiva, eu visualizo mais de mil perfis, abordo diretamente entre setenta e cem, e chego a três, no máximo cinco finalistas validados. Mil pessoas disponíveis e cinco pessoas certas.

Os números acompanham. A pesquisa global de escassez de talento da ManpowerGroup aponta que 72% dos empregadores relatam dificuldade em preencher posições — e, mais relevante que o percentual, a natureza do problema: a escassez é descrita como estrutural, e não cíclica. Os sistemas de formação não produzem as competências no ritmo em que a economia as exige. Escassez cíclica passa com o próximo trimestre. Escassez estrutural não passa: administra-se.

E ele sabe que é raro

O que fecha o circuito é a informação. Assim como o código de barras deu ao varejo o dado que era da indústria, a transparência deu ao profissional o dado que era do empregador. Salário, cultura, reputação, rotatividade, motivo de saída de quem passou por lá — tudo isso hoje se pesquisa antes da primeira conversa.

O talento hoje sabe quanto vale. É essa consciência que transforma escassez em poder de barganha.

E há um intermediário, como houve no varejo. LinkedIn, plataformas de vaga, sistemas automáticos de triagem: eles se colocaram entre a empresa e o profissional e ficaram com o que importa — o acesso e o dado. A empresa que anuncia uma vaga faz o que a indústria fazia ao disputar espaço na prateleira: paga para aparecer num lugar que não é dela, para um público que não controla, sob regras que não escreveu.

O que sempre existiu, e o que mudou

Talento com poder de escolha não é novidade. Sempre houve o nome raro, o profissional excepcional que, uma vez reconhecido, ditava condição e escolhia onde queria estar.

A diferença é de escala. Isso era exceção — um punhado de pessoas em cada mercado. Com a régua onde ela está hoje, quem reúne o encaixe exato de um recorte específico virou o talento disputado.

A régua subiu tanto que quem passa por ela passa em posição de força.

O que isso muda para quem contrata

Esperar candidatura é esperar quem sobrou. Cerca de 80% do talento que resolve o seu problema não está procurando recolocação — logo, não vai ver o seu anúncio. Anúncio alcança quem está disponível, não quem é certo. É por isso que o método é a busca ativa.

O processo virou via de mão dupla. Cada etapa lenta, cada retorno que não vem, cada entrevista mal conduzida é informação que o profissional usa para decidir sobre você. Ele tem outras conversas em andamento.

A oportunidade precisa ser vendida, não anunciada. Convencer alguém que não estava procurando exige uma narrativa construída — não uma descrição de cargo.

O ponto

A indústria demorou a aceitar que precisava negociar com o varejo. Quem aceitou primeiro criou uma disciplina inteira para lidar com isso e saiu na frente por uma década.

O mesmo intervalo está aberto agora. A maioria das empresas ainda contrata com a régua de um mercado que não existe mais — e conclui que "está difícil achar gente".

Não está difícil achar gente. Está difícil ser escolhido por quem importa.

Thiago Sibuya

Headhunter e consultor, fundador da Sibuya Consulting. Doze anos de consultoria e seis conduzindo buscas executivas complexas — depois de anos lendo empresas por dentro na Amcham, na PwC, na Foursales e na Randstad.

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